quinta-feira, 24 de julho de 2014

Vagina e poder

 
Quem busca informação sobre gestação e parto pode se assustar ao perceber que aquilo que é mais esperado e desejado por um casal, pode ser a porta de entrada para dor e violência.

Há uma rede de mulheres, mães e também pais, organizada em prol do chamado parto ativo, ou maternidade consciente, entre outros termos e significações. Mulheres, e também alguns homens, engajados na missão de mostrar que a mulher é (e assim deve ser reconhecida) como a protagonista da gestação e do nascimento.

Há um conjunto de textos, entrevistas e até filme sobre violência obstétrica, uma expressão que parece estar sendo ainda desvendada em sua significância. Como definir o que é ou não é violência obstétrica, na psicologia, na área médica ou na juridica, e depois, como implantar um sistema de proteção contra a violência obstétrica, alterando um conjunto de práticas nefastas repetidas ao longo de anos?

Num debate sobre violência obstétrica, veiculado pela TV Cultura, em seu canal Web (http://tvcultura.cmais.com.br/jcdebate/videos/jc-debate-sobre-violencia-obstetrica-06-03-2014), a médica obstetra afirma que os médicos chegam a inventar argumentos para levar uma mulher à cesárea, ou seja, eles mentem para não ter que esperar o tempo natural do parto. O motivo é financeiro, os planos de saúde pagam o mesmo valor por um parto, tenha sido uma cesárea de uma 1 hora ou um parto vaginal de 12 horas. No debate ela apresenta uma série de dados assustadores sobre o número de cesáreas no Brasil (muito acima do recomendado pela OMS) e o uso excessivo de fórceps, entre outros procedimentos desnecessários e agressivos cometidos por profissionais da saúde formados numa cultura médica moldada por interesses comerciais. No mesmo debate, a defensora pública explica que a luta é criar a legislação, pois não existe violência obstétrica juridicamente falando! Ela disse que o que a justiça faz, por enquanto, é enquadrar em outros crimes como lesão corporal e danos morais.

A medicina exercida atualmente no Brasil é mesmo comercial, e mulher é carne no açougue. Nossos médicos podem mutilar as vaginas e barrigas das mulheres, puxar a fórceps seus filhos, causar dores terríveis e privar mulheres da experiência que poderia ser a mais significativa, natural (animal e instintiva inclusive) e, portanto humana, na vida de uma mulher, homem, e filha ou filho.

A criança nasce com horário marcado, diferente do horário que os corpos desejam e para o qual se preparam. O hormônio natural (ocitocina) que existe no nosso corpo especialmente para o momento do parto, que regula todos os tempos entre mãe e filh@, é substituído pela ocitocina sintética, criada artificialmente e injetada a doses cavalares para acelerar o parto.

Além do aspecto econômico que subjuga mulher e família a práticas cruéis, há ainda o contexto cultural, ou seja, o machismo com seu horror a vagina. O artigo de Ligia Moreiras Sena, bióloga e doutoranda em Saúde Coletiva, disponível no link http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2014/04/gata-eu-quero-ver-voce-parindo.html, fala sobre a rejeição ao parto vaginal e ao próprio uso da palavra vagina.

Eliane Brun, em seu artigo Por que a imagem da vagina provoca horror?, publicado na revista Época (http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/06/por-que-imagem-da-vagina-provoca-horror.html) conta o espanto da mulher que trabalha em sua casa como empregada doméstica quando se deparou com um quadro novo que ela havia comprado. E segue revelando outras histórias de horror à obra (replicada no quadro comprado) A origem do mundo, de Gustav Coubert, que retrata a vagina de uma mulher deitada com as pernas abertas, como se tivesse acabado de gozar. Por fim ela se pergunta se é ela a maluca da história por ter gostado tanto de ver aquela vagina escancarada quando a reação da maioria das pessoas é de rejeição. Na história dessa e de outras obras que trazem a vagina na tela, a experiência é de horror.

Contraditório se pensarmos na quantidade de revistas pornográficas que estampam mulheres nuas nas bancas, ou nos programas de TV com suas panicats e xuxas... Ou seja, mulher pelada pode, desde que seja sempre numa condição de objeto sexual, e não de protagonista do desejo ou de qualquer coisa que seja.

O mesmo acontece na hora do parto, em que no lugar da mulher ativa e protagonista, só há espaço para a mulher objeto de intervenções cirúrgicas, que por vezes têm suas vaginas mutiladas pela episiotomia – procedimento desnecessário e contra-indicado, mas amplamente utilizado. Nesse sentido, vale a pena conferir o trabalho da fotógrafa Carla Raiter e da produtora Caroline Ferreira, no site: http://carlaraiter.com/1em4/.

Fico pensando que a opressão está presente, muito presente, presente em tantos atos cotidianos e tão carregada de medo, nojo ou ódio... às vezes tenho a impressão que com toda a recusa que a sociedade tem em aceitar seus preconceitos diversos, o machismo ainda resiste a 'sair do armário'. Me indigna aquela história de que a mulher tem inveja do pênis do homem. É quase como dizer que nascemos já como opositores, e que o torturado tem inveja do cassetete que seu torturador possui. Talvez se fosse o inverso, ele é que poderia estar torturando. É como dizer que ao oprimido só cabe querer ser opressor. E nessa história de oprimidos e opressores, a guerra nunca acaba. Também poderíamos dizer que o homem tem medo da vagina da mulher, medo de seu poder. Mas não vejo solução ao enfatizar essa relação de opostos....

Mas tem essa coisa do ‘poder’: o ‘poder sobre’ – o poder para dominar, agredir, estar nos melhores cargos, ter mais dinheiro; e o ‘poder ser’, o ‘poder fazer’ - que vem antes disso e legitima isso. Ou seja, se o homem pode ter seu falo representado das mais diversas formas, se pode andar sem camisa, ser papa ou não ser criminalizado pelo aborto de seu filho, o que a mulher pode? E se ela não pode ter filhos como protagonista, não pode exercer a maternidade porque o mercado não deixa, não pode mostrar o peito, então, novamente, o que ela pode?

É esse entendimento libertário do parto ativo que me fez gostar tanto disso, porque é sim uma questão de empoderamento, e isso é fundamental discutir em feminismo. E o mais interessante: é empoderamento para uma experiência essencialmente feminina. Poder ser mulher, poder ser mãe, poder participar ativamente daquilo que ninguém sabe fazer melhor do que uma mãe.

Quem sabe no dia que a sociedade aprender a respeitar o ‘poder ser’ mulher, a gente consiga viver com mais igualdade e paz.

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